Por que você não fala?

O amor é um  jogo, é um grande laço, um passo pra uma armadilha, cantaria Djavan.

E lá vamos nós, nos preparar pro jogo. Colocar aquela máscara de pessoa à prova de erros e super a fim de ser conquistada. Se preparar pra guerra. Ficar pronta pra batalha de querer e não poder porque pode ser fácil demais. De ficar quietinha porque já falou tanto de amor pra quem não merecia que tudo agora parece ser parte de uma grande mentira.

E isso vira rotina. Se transforma no amor depois do amor, como se fosse sempre assim e só fosse possível assim. Se sucedem casos de coisas que não foram por causa dessa casca que a gente cria como se fosse uma ferida que nunca cicatriza. E as palavras ficam velhas dentro da gente porque não foram ditas. Perdem o sentido depois de um tempo e até esquecemos como ficariam bonitas se captadas por alguém lá de fora.

De repente, e não mais que de repente, alguém pega no teu braço, com uma leve impaciência e pergunta: por que você não fala? por que você não diz que gosta de mim como eu digo que gosto de você? e coloca todas as certezas chão abaixo. Eu gosto, mas só consigo sorrir e dizer que quero tudo assim: bem simples.

O moço disse que a vida não é um jogo. Parece que o tetris sentimental fica mais fácil quando a gente só precisa encaixar as peças, sem fingir, sem guardar palavras que precisam ser ditas, sem parar o presente pelo que ainda nem aconteceu.

Convidei pra ficar, dei a mão pela noite toda e ofereci um café pela manhã. Fiquei ali sem máscaras, com aquela cara sem maquiagem e uma camiseta velha, servindo um café no amanhecer com um sorriso bobo. Vi me olhar em silêncio. Desconfiada, logo perguntei “o que foi?” e ouvi ele dizer que eu tinha o olhar ainda mais lindo quando acordava.

Fiquei atônita. Ainda tentando acreditar que nesse campeonato não vai ter próxima jogada.

Anúncios

Os morangos de Rubem Alves

Rubem Alves

Há cerca de cinco anos, eu tive um contato muito forte com o segmento educacional. Por conta do trabalho, conheci educadores brilhantes, profissionais inspiradores e só reforcei minha crença de que tudo nessa vida passa, de alguma forma, pela educação.

É ela que se revela em hábitos, crenças, amores e valores. É ela que tem o mais lindo poder de mudança e inquietação, de permitir acesso e mostrar outros mundos a quem só conhecia um. Poderia passar horas falando sobre educação. Vocês não podem ver, mas espero que sintam nas palavras o meu brilho no olho quando falo da transformação de que é capaz.

Foi nessa época que conheci Rubem Alves. Até já tinha ouvido falar dele antes disso, mas foi nesse ano, precisamente, que tive contato com suas citações e metáforas, por meio do amável Prof. Osvino Toillier. Comprei um livro, dois, três, quatro e fui montando uma coleção… As palavras de Rubem Alves foram dando sentido a tanta coisa em mim e revelando amor no ensinar, seja o que for. Adquiri o hábito de presentear pessoas queridas com os escritos dele e, por inúmeras vezes, indiquei “leia Rubem Alves que vai te fazer bem”. E fazia.

Folhear os livros era uma viagem que reforçava a crença de que é preciso operar nossa vida com amor e com intensidade. É preciso encher o que vemos de poesia para conseguir ver o mundo um pouco mais colorido. É preciso metaforizar o duro da vida pra conseguir manter a alma de criança.

Depois de muito tempo, percebi que Rubem Alves lembrava meu vô. Ler seus livros era ficar conversando com o avô afetuoso e íntegro que tive, saudosa e com o pensamento longe. Me sentia um pouco Raquel, a filha a quem Rubem escreveu tanta coisa linda.

Quando soube que estava doente, fiquei muito triste, mas pensei que meus avôs, o da ficção e o da vida, se encontrariam no ‘depois-daqui’. Seria um encontro cheio de simplicidade, de alegria, de intensidade e de ipês amarelos, como Rubem tanto amava.

E pode deixar que, como ensina no vídeo abaixo, vou comer todos os morangos, sempre que puder!


É melhor ser alegre que ser triste!

Alegria de viver é uma coisa que fascina. Desde muito pequena, quando ainda estava formando meus primeiros valores, já me aproximava da galera que curtia o riso, o brilho no olho, a malemolência de quem vive a rir do que não é tão bonito quanto gostaríamos. Me cercava de amigos com energia positiva e ia cantarolando hakuna matata. Amo a vida assim: viva! Gosto de pessoas alegres, gente pra cima.

Mas, as pessoas que reclamam. E reclamam de tudo. E reclamam o tempo inteiro, minha gente.

O lanche veio frio, o lanche veio quente demais, o chefe é ruim, o estagiário também não presta, a chuva alaga a cidade que já é uma bosta, mas no calor não tem jeito de pegar o ônibus lotado com as pessoas suando, passo o dia inteiro sentado sem fazer nada, tenho trabalho demais e queria um tempo ocioso pra ser mais criativo… É um toma lá dá cá pra alimentar o hábito de mandar a energia positiva pro espaço e nunca recuperá-la. Pior de tudo: esse tipo de gente é tão bad vibe que ninguém tem coragem de sinalizar ou dar um basta no looping da chatice.

Sabe o que é mais interessante: o fato de que a maior parte das reclamações não altera a situação que nos incomoda. É pura força do hábito. Experimente se autoquestionar se “reclamar disto vai mudar meu problema?” e irá perceber que, na maioria das vezes, a resposta é NÃO. Reclamar do tempo não faz parar de chover. Pestanejar pelas coisas que acontecem no trabalho ou no relacionamento também não os altera. Quem faz alguma coisa pelo mundo é quem arregaça as mangas e faz sua própria mudança. É aquele tipo de gente que aprendeu a ver o lado branco da lua, gente que toma decisão a partir da frustração, da tristeza e da decepção. Gente que reclama menos e faz mais.

De um tempo pra cá, tenho reduzido vínculos com pessoas assim. Exceto em relações que me são obrigatórias, não dou mais o direito de levarem meu entusiasmo com as coisas mais simples do meu dia a dia. E vai se formando uma rede de gente do bem, gente que vê o copo cheio, apesar dos momentos difíceis e das dores da vida, gente que ajuda quando precisa ajudar e emana uma energia otimista só de chegar perto.

No fim das contas, quando a gente é assim, só fica perto quem tem a mesma paixão e o mesmo brilho no olho.

large (3)


Lembrança na madrugada

Acordei porque deixei uma fresta da janela aberta e o sol começou a entrar. Metade de mim ainda dormia quando olhei o celular e tinha uma mensagem: “Não consigo dormir. Tá acordada? Fiquei pensando em ti”. 4h da madrugada e tentava me dizer que era falta de sono. Sei!

Meu bem, você tem muito a conhecer sobre mim ainda e podemos começar pelo fato de eu só acreditar nestas histórias de “estive pensando em você” quando não gosto da pessoa. Se eu gosto, como suponho você já saiba que é o seu caso, eu não as levo a sério e crio continuações imaginárias de “certeza que foi pra balada, tava ruim e lembrou que era melhor ter ficado comigo”.

Sim, eu estrago tudo. Eu sou a musa inspiradora destes textos sobre gente que foge do amor. Tava descrita aqui:

Dizer que gosta de alguém se tornou motivo pra se afastar e não pra se aproximar; parece ser a pior coisa a se ouvir, parece que cria-se então um escudo ou algo do tipo “não me venha com essa história”. Aí vem gente que diz “calma, já sofri demais e não quero passar por isso de novo” e essa reação soa como uma vingança em outra pessoa que nem tem culpa de nada, e que até que prove o contrário, é só mais uma pessoa tentando ser feliz com alguém.

No entanto, uma coisa que talvez você não saiba é que estou melhorando. Tenho 27 anos e fugi de quase todas as histórias fascinantes que poderia ter vivido. Preferi a aventura, o provar que eu era maior que a possibilidade de ser rejeitada com o familiar “vai ficar tudo bem sem ele porque sou uma mulher foda”. Dos amores que tive, não consegui ser forte o suficiente para manter os vínculos: não superei a traição, a escolha por ir ao invés de ficar comigo, o não querer me ter para seguir numa relação sem paixão, a falta de compatibilidade. Não fui forte e lá se foram os amores, mas ainda assim foram bem mais bonitos de todos os “e se…”

É da minha personalidade esse ímpeto de intensidade nas relações. Sabe o que é bonito de ter te conhecido? Estou tentando frear meus instintos, usá-lo como se fosse uma ponte para dias mais tranquilos na minha vida afetiva.

Depois que comecei a repensar minhas emoções, percebi que nunca mais queria ser a mulher maluca que fica perturbada quando gosta de alguém, que não podia mais ser a referência de maluca que os namorados das minhas melhores amigas usavam para ilustrar a adjetivação “maluca”, que pouco importava se ia chorar depois que falasse sobre o que sentia e que precisava aceitar duas coisas que minha terapeuta disse que me fariam crescer muito: a rejeição e a solidão.

A rejeição para viver o luto do amor, pois não estamos num jogo em que as peças precisam ser substituídas rapidamente. Aquele “não te quero” precisa de tempo para ser digerido.

A solidão pra lembrar do que eu gosto e de que está tudo bem se eu preferir ficar mergulhada em livros e séries no sábado à noite do que ir para balada marcar no bingo os caras com que fiquei.

Então, moço, é porque estou nesse processo que vou acreditar que você não conseguiu dormir mesmo. Eu sei que a gente está só está se conhecendo e que eu já tenho vontade de te ver quase todos os dias. Sei também que você é super ocupado e cheio de receios quanto ao que sente (óh céus, até somos parecidos). Sei que é bom eu ser legal não porque você gosta de mim, mas porque você merece. Obrigada por me fazer ir com calma e por lembrar de mim na madrugada, seja na balada, na insônia ou no ensaio da sua banda. Pode continuar lembrando, tá?

“Bom dia! Conseguiu dormir? Só vi agora a mensagem, fiquei feliz por ter lembrado de mim ;)”, respondi.


Sobre o que ficou guardado

large

Há um tempo, entrei num processo terapêutico para entender melhor minhas escolhas e resgatar um “eu” que ficou guardado na gaveta.

Uma das atividades que venho realizando desde então, tem sido anotar coisas sobre mim. Elas ficam meio perdidas, desconexas, mas estão ali, pra lembrar quem a gente realmente é, a despeito de quem os outros querem que sejamos ou do personagem que nos tornamos para conquistar ou impressionar alguém.

É nessas anotações bem íntimas, que permanece guardado o que ficou de valores, de família, de amizade e de amor. É ali, quando abro o bloco de notas, que me dói entender por que relacionamentos não deram certo, por que pessoas queridas saíram da minha vida, por que não consegui entender ou perdoar quem merecia, por que aceitei envolvimentos com doação pela metade, se eu preciso inteiro, por que me doei para relações que só elevaram meu nível de ansiedade. São tantos os porquês e é ali que vejo que muita coisa poderia ter sido vivida de outro jeito se essas anotações existissem há mais tempo.

No entanto, também é ao abrir o bloco de notas que consigo sorrir para quem eu sou de verdade. Sabe aquele encantamento que a gente esqueceu que tinha? Pensar: “poxa, como eu sou uma pessoa linda! ou eu mereço mesmo gente tão legal quanto os amigos e amor que tenho torna a vida mais plena e mais simples. Quando a gente aceita o que a gente é, de fato e verdade, com todos os defeitos e aquela vergonha por gostar de uma música brega ou de ter uma situação negra no passado, tudo fica natural. Dizer SIM ou NÃO é bem mais fácil quando entendemos os motivos implícitos na escolha.

Não dá pra enganar a vida a vida inteira, me falaram durante o processo. É preciso saber o que a gente é, o que a gente ama e o que nos aquece o coração e as expectativas, pois só assim dá para se abrir para o que nos faz feliz. É como pegar as rédeas e não deixar a vida e os outros decidirem pra gente. Não busco estar livre da decepção, da tristeza e da dor, mas quero que elas tenham origem no que eu sou e não naquela eterna sensação do “e se…” que vem quando a gente disfarça o que é nosso.

Compartilho com vocês, leitores que já são amigos, algumas das minhas amadas anotações:

Das coisas que eu mais gosto na vida, está acordar cedo no fim de semana pra ficar deitada na cama, lendo, vendo vídeos idiotas e curtindo a sensação de haver vida quando estamos vestidos de pijama. É tão gostoso, sem horário, sem compromisso… Meus amigos me chamam de maluca por acordar cedo num dia em que não tenho horários, mas me faz um bem incrível. Se puder, permaneço o dia assim, nesta mesma bolha de curtir um nada que é muito.

Outra coisa que eu amo é o Natal. Um dia, na terapia, cheguei a falar pra minha psicóloga que queria ter uma família bem grande só pra todas as crianças me ajudarem a montar o pinheirinho. Obviamente, já segurei a emoção da família grande, mas continuo com a vontade de curtir o cheiro e o gosto de família que vem com o Natal. Quero que as pessoas vivam comigo aquela época em que tudo emociona e queiram compartilhar abraços, presentes simples e carinho.

Ahhhh, também tem outra coisa que eu adoro. É conhecer um monte de lugares e me sentir à vontade para escolher sempre o mesmo. Morando em São Paulo, acho lindo ter todos os tipos de gastronomia há poucos quilômetros, mas acho mais lindo ainda ir sempre no mesmo boteco da esquina em que os garçons já me sorriem e pedir “o de sempre”. Ou entrar na padoca conhecida por inúmeros quitutes e pedir pão e café. Tenho apreciado cada vez mais as coisas simples da vida, essa imensidão de possibilidades que me permitem gostar do que eu gosto e as escolhas sem o peso de precisar ser.

Eu tenho uma atração por gente quente. Gente morna é uó. Quero brilho no olho e paixão, naquelas coisas mais bobas como gostar dos amigos, do trabalho, de um domingo em família sem nada demais. Adoro ver alguém contando uma história com entusiasmo ou descrevendo um sonho, rasgando o pacote do presente para ver o que tem dentro, vivendo com pele e alma no jogo. É fácil amar quem ama.

Ainda tenho muita coisa pra anotar. Toda vez que encosto a cabeça no travesseiro e o silêncio cala, me pego pensando naquele “Se isso, por que aquilo?” ou “se acreditamos em família, por que nos envolvemos com pessoas que vêem traição como algo natural?” ou “se achamos bonitas as coisas simples, por que aceitamos aquela relação pautada no parecer ser?”, “se gostamos de intensidade, por que aceitamos nos esconder?”.

Não é um exercício fácil, mas pensar sobre a gente também é um ato de amor. Um lindo ato de amor próprio.


mães que transbordam

Imagem
Ser mãe é um amor que não cabe em si. Ou você nunca ouviu algum ser da espécie Mãe falar “a gente cria os filhos pro mundo”.
Na idade em que minha mãe foi mãe, eu tava entrando na faculdade e aprendendo a andar sozinha em Porto Alegre, que à época era gigante pra mim. Mas ela foi mãe e eu fui a diversão de todos os amigos dos meus pais, que me chamavam de “tinalinha” e adoravam me mimar, quase que como um bibelô do grupo de adolescentes quase-adultos. Ela foi mãe e me ensinou que é possível conciliar tudo: estudar, trabalhar, cuidar da família… Minha mãe foi o primeiro modelo de mulher que manda ver e, com certeza, o que mais influencia nessa minha mania de querer ser sempre melhor. Ela não é de falar muito e eu, tagarela demais, sempre fiquei inquieta com o jeito que se cala quase sempre seja pras decisões dos outros, seja pras decisões da vida. A lição só veio anos mais tarde, quando aprendi com os tombos, conflito e decepções que às vezes o mais sábio é silenciar e observar, com aquele conforto emocional de quem espera passar.
A coisa mais legal que eu aprendi com a minha mãe foi que amor não é posse. Justamente por amor, minha mãe nunca deixou de incentivar meus sonhos, mesmo quando eles me levaram pra bem longe dela. Justamente por amor, ela deixou que um monte de gente me demonstrasse cuidado e carinho. Tias, vizinhas, amigas, colegas de trabalho… minha mãe deixou eu experimentar o amor de todo mundo que quisesse dar, influenciando neste meu jeito sensível de ser, fazer e ver o mundo.
E minha vó também foi mãe com a minha mãe. Minha oma, como chamamos vó em alemão, se atrapalhava de tanto amor, me empanturrava de comida e me ensinava o valor de esperar o fim da massa de bolo pra raspar o pote. Passava muito tempo dedicando tardes a mim, preparando chimarrão doce (uma espécie de chá com erva mate, permitida às crianças nas rodas de chimarrão gaúchas) pipocas e guloseimas. Era muito legal!
Também minha dinda foi mãe com minha mãe. Ela é a pessoa mais doce que há, magrinha que só ela, foi minha amiga, babá, manicure e dinda, minha e de todas as crianças que nasceram depois de mim na família e que aprenderam a chamá-la de dinda como que por ciúmes do meu título. Perdeu seu nome e virou simplesmente “A Dinda”.
Saí de casa para estudar e continuei tendo muitas mães, para acalmar a minha. Minha vó paterna, com quem até então eu praticamente não tinha contato, as mães das minhas colegas de faculdade, minha professora-orientadora-amiga e algumas amigas que, na minha falta de juízo, precisaram exercitar todo seu instinto maternal. Foram tantas mães que em cada uma delas encontrava um pouco da minha, como se fosse um ninha.
Quando cheguei em São Paulo, ainda assustada com as dimensões que a vida tomava, lembro que a Dona Deusa, uma senhora extremamente amável que cuida da agência em que trabalhava, deixou um bilhete escrito à mão sobre minha mesa em que constava seu telefone e dizia “Seja bem-vinda. Para tudo que precisar, pode me ligar”. Logo pensei: ela é mãe, vai saber me ajudar, se eu precisar.  Naquele dia, perdi o medo de São Paulo. Depois disso, troquei de emprego e vi Dona Deus mais umas duas vezes apenas, mas o bilhete continua colado na parede ao lado da minha cama.
Acho que as mães educam a gente com um sonho de que sejamos grandes pessoas. Grandes de caráter, de integridade, de querer ser. Eu tive uma infância permeada pelo lúdico, cheia de incentivo à leitura, imaginação e fantasia e um filme que marcou minha infância foi Menino Maluquinho. A cena final permanece viva na minha lembrança como algo que bastaria para minha mãe: o menino maluquinho se transformou num cara legal e num cara feliz.
As mães projetam na gente o ideal de que sejamos íntegros, justos, admiráveis. Não é por elas, mas por nós. É pra que sejamos tão merecedores que nunca nos falte amor, tão lindos de intenções que sempre tenhamos gente boa pertinho, principalmente quando elas não estiverem. Demorei um tempão pra entender que tudo é parte de um grande plano, afinal, as mães pensam em tudo.
Sei lá se consigo ser um pouquinho do sonho da minha mãe, mas ela me fez tão gente, que fui capaz de fazer outras muitas mães de amor por aí. Obrigada, mãe, por ter um amor que não cabia. Obrigada por ser dessas mães que transbordam.

Toda fuga encerra uma busca

 

unnamed

Há alguns anos, comprei num sebo em Porto Alegre um livro intitulado “Dá pra ir embora?” e, como é típico de minha pessoa, o coloquei na prateleira dos inúmeros livros que um dia serão lidos e nunca mais o tirei de lá.

Ao faxinar meu quarto, voltei a pegá-lo nas mãos e na sua primeira página o subtítulo me atraía como um imã: uma visão psicossomática das fugas, a depressão nos corpos. As linhas que seguiam foram tapas na cara de uma crítica tão aguçada que foi capaz de me deixar reflexiva por dias. Não consegui utilizar minha corriqueira desculpa de falta de tempo, pois o livro é pequeno e de rápida leitura, perfeitamente apreciável em dois ou três trajetos de ônibus até o trabalho. Não consegui fugir!

Pra começo de conversa, o livro foi escrito por um endocrinologista e psicanalista, que atende pelo nome de Ricardo Maximiliano Pelosi e traduziu muito do momento que vivo de redescoberta do corpo e do conceito de beleza, sendo que ambos passam muito mais pela cabeça e histórico que nos são particulares do que pela bula de remédios milagrosos. Entre as questões abordadas pelo autor, chama atenção a defesa de que obesidade é sintoma e não doença. Sintoma que assim como tantos outros reflete o tempo que vivemos, de ansiedade, de perversas escolhas, de relações que assumem novas configurações e de uma pressão contínua por estar sempre bem. Sintomas aos quais sucumbimos todos os dias em mecanismos de fuga que Pelosi ilustra com maestria por meio dos casos clínicos que nos conta e com os quais é impossível não ter uma pontinha de identificação. Sintomas que, segundo o próprio autor, precisam ter suas causas estudadas, pois tratar sintoma sem entender a causa é “no mínimo falácia e no máximo charlatanismo”.

Separei abaixo alguns trechos, cuja minha identificação foi instantânea (aquele sentimento de “gostaria de ter os escrito isso”).  Espero que sejam suficientes para deixá-los com o desejo desta leitura ❤

Inquestionável avanço das comunicações e do desenvolvimento humano, a Internet em seus chats de múltiplas relações permitiu aos homens a incrível façanha de, ao mesmo tempo, fugir e esconder-se em seus quartos inexpugnáveis, experimentarem  a fantástica emoção da onipotência: posso ser, atrás desta tela, qualquer coisa. Uma grande fuga utópica e ucrônica. Um autismo epidêmico. (p.37)

A cabeça nos salva e nos mata, é preciso escolher o uso que faremos dela! É uma frase de efeito, ótima para conferências. Falsa. Dá idéia de simplicidade a algo muito complexo. Escolhas desta ordem demandam profundos esforços elaborativos, conquistados com a sabedoria dos tempos e com análises bem sucedidas. (p. 79)

Os sintomas são transformações concretas de conteúdos abstratos – emoções, sentimentos, traumas etc. – que transbordam do continente emocional. (p. 90)

O palco ainda é o auditório da empresa, o pátio da fábrica, a coluna social, mas… sentimentos não cabem lá. Algo tem que pagar o alto preço deste banimento emocional. O corpo é a vítima desta conta. (p.95)

 

PS: O livro é barato, logo, não fujam para a explicação dinheiro. O livro é pequeno, logo, não fujam para a falta de tempo. O livro é gostoso de ler, não fujam para a falta de apreço pela leitura. O livro tem fundamentação e teoria, não fujam para o desgosto por auto-ajuda.